Destaques

10/10/2018 - Biólogo brasileiro registra relação rara entre mariposa e ave



Lacrifagia. A palavra é diferente e pode gerar muitas dúvidas, mas parte delas começaram a ser solucionadas por Leandro Moraes, biólogo e herpetólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus, AM.


No ano passado, durante uma expedição noturna em áreas de florestas de várzea, de Manaus a Tefé, o especialista em anfíbios e répteis se deparou com um comportamento curioso: uma mariposa se alimentando das secreções oculares de uma fêmea de solta-asa-do-norte.


“Encontrar uma ave dormindo já não é algo tão corriqueiro durante o trabalho de campo, então só esse encontro já foi muito especial. Fiquei duplamente surpreso ao notar que a mariposa estava inserindo continuamente a probóscide no olho da ave”, conta Leandro, que observou e registrou o momento.


A observação feita pelo biólogo foi a terceira relatada em todo o mundo e a primeira no Brasil. Já o flagrante é “debutante” no mundo científico, sendo o primeiro registro em vídeo da lacrifagia entre mariposa e ave.


Intrigado com o flagrante, o pesquisador buscou explicações para o comportamento. Foi na dificuldade em encontrar relatos que surgiu a ideia de colaborar para a ciência. “Relatei esse caso em uma nota científica e discuti as possíveis causas e consequências para a ave e para a mariposa”, diz.


A partir daí, perguntas e respostas surgiram para desvendar o “mistério” do registro. Isso porque o hábito de se alimentar das lágrimas de vertebrados é algo comum entre os insetos, entretanto, eles preferem animais lentos e plácidos para conseguirem se nutrir sem serem perturbados, situação improvável quando se trata de aves.


“As aves, de metabolismo rápido e extremamente ativas, não são alvos preferidos nessa relação e essa é uma das razões da raridade de encontros envolvendo esses dois organismos”.


Outra questão levantada foi o por quê da mariposa estar complementando a dieta salina com as lágrimas da ave, já que a espécie vive em um dos ambientes mais produtivos da região amazônica. “Para isso, chegamos a duas respostas. Ou o objetivo da mariposa seja complementar a obtenção de proteínas ou ela realmente esteja em busca de sódio”, diz Leandro, que relaciona a necessidade do inseto com as adaptações climáticas da região.


“A busca pelo sódio pode estar relacionada à escassez em determinado período ou espaço, causada pela variação e dinamismo que esse tipo de floresta está sujeita. Tudo isso em virtude do alagamento anual”, completa.


Tamanha raridade resultou em uma grande repercussão, chamando atenção não só de especialistas, mas de observadores e admiradores da natureza. “Nós pesquisadores esperamos sempre que o sucesso na divulgação ajude a construir o conhecimento científico, mas que também atinja as pessoas leigas, que aparentemente estão interessadas em situações curiosas da natureza”, diz Leandro.


Para o biólogo, o interesse no caso é esperança para a ciência-cidadã. “Descobertas naturalísticas, mesmo que aparentemente simples, podem representar um ótimo ponto de início para grandes pesquisas. É importante redobrar a nossa atenção e continuar a registrar e divulgar estas situações curiosas, sendo através de pesquisadores ou da ciência-cidadã”, completa.


Assim estaremos colaborando junto para o avanço de aspectos básicos do conhecimento sobre os sistemas naturais.


BENEFÍCIOS E MALEFÍCIOS


A imagem pode causar má impressão quando se pensa na delicadeza de uma ave, mas os estudos indicam que, provavelmente, a espécie não seja prejudicada nessa relação. No entanto, essa é outra questão levantada pelo flagrante.


“Existe chances da relação ser indiferente para a ave, já que esta não aparentava incômodo nenhum e não tentou escapar durante o evento, sendo assim, uma relação benéfica apenas para a mariposa. No entanto, existem casos relatados na ciência de que a lacrifagia pode ser uma via de acesso para aumento da transmissão de uma infecção bacteriana ocular em sistemas de criação de gado”, diz.


“Como a relação envolvendo esses organismos é raramente observada, o conhecimento científico é muito escasso e não existe evidência empírica sobre qual é o resultado dela para a ave”, complementa o biólogo.


LÁGRIMAS DE CROCODILO


De acordo com Leandro, os insetos buscam as secreções dos vertebrados, pois nelas encontram fontes adicionais de nutrientes, como sódio e proteínas, importantes para o sucesso reprodutivo, capacidade de voo e longevidade.


Diversas relações de obtenção de nutrientes através de secreções de vertebrados existem no mundo animal e são comumente observadas, especialmente entre insetos e mamíferos, tartarugas e crocodilos.


“Os insetos normalmente obtêm os nutrientes necessários para viver das mais variadas formas, tanto de fontes animais quanto vegetais. As secreções de vertebrados atuam como fonte adicional de nutrientes”, completa o biólogo.




Fonte: G1

Foto: Leandro Moraes/VC no TG