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07/08/2019 - Entrevista com o insetívoro José Alberto Quartau: "Os insetos sempre fizeram parte da dieta humana."



É o mais experiente dos entomologistas portugueses. O seu fascínio pelos insetos vem de longe, da infância passada em longas temporadas na região entre Ourém e Tomar, que ele descobriu ser um paraíso onde havia grutas e nascentes que palpitavam de vida. Nos três meses que então duravam as férias escolares habituou-se, ano após ano, a calcorrear o campo, colhendo pedras, insetos e outros bichinhos que depois levava para casa. Ainda hoje conserva alguns exemplares dessa época. Seguiu Biologia, claro, e a Entomologia chegou-lhe pela mão do seu professor Almeida Fernandes, que recorda com gratidão e a quem dedicou a primeira espécie nova que descobriu. Uma comissão de serviço para dar aulas na Universidade de Luanda, em 1969, abriu-lhe o horizonte para uma diversidade imensa de insetos, e o material que aí colheu acabou por ser decisivo para a tese de doutoramento que fez mais tarde no Imperial College, de Londres. Até hoje já descobriu e descreveu 129 espécies novas para ciência. A uma delas deu o nome da mulher. Hoje já não dá aulas, mas continua a sair para o campo e mantém bem viva a atividade de investigação, no Ce3c, o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Como ele próprio diz, "Once an entomologist, always an entomologist". Comer insetos? Claro. Provou em Angola e gostou: soube-lhe a nozes. E não descarta, um dia destes, uma refeição só de insetos. Os restaurantes já existem, só não calhou ainda.



Como nasceu o seu fascínio pelos insetos? Não é assim tão comum, pois não?


De certo modo, não. No mundo ocidental há uma visão muito negativa dos insetos, por razões culturais, provavelmente de raiz judaico-cristã. No Oriente, e na China, por exemplo, já não é assim. A pergunta é engraçada, porque o fascínio nasceu cedo. Descobri a natureza na infância. Sou de uma região entre Ourém e Tomar e foi aí que me fascinei pela natureza.



Era um daqueles miúdos que iam para o quintal apanhar bichinhos para colecionar?


Tal e qual. Apanhava de tudo. Fascinavam-me os animais. As aves, os insetos, as rochas também. E colecionava isso tudo. Havia umas grutas na região. Nós éramos miúdos e íamos para lá. Passava sempre ali as férias, que antigamente eram muito longas, duravam três meses. Dava para passear por todo o lado, com os amigos, rapazes da minha idade. Ali perto, no Agroal, que fica num vale bastante profundo, há uma nascente que alimenta o rio que passa em Tomar e íamos também para lá. Com os insetos muito cedo me impressionou o canto das cigarras, aquele barulho ensurdecedor em coro, que é o som do verão em toda a região mediterrânica. Eram horas seguidas daquilo, isso despertava-me muita curiosidade. Mais tarde foi uma das minhas áreas de investigação, e isso deu-me bastante prazer. As cigarras desde miúdo me espicaçaram a curiosidade. Eu apanhava-as. Uma dessas cigarras, a Lyristes plebejus, que na altura era muito frequente em toda aquela área, mas também no resto do país e na Europa, hoje é raríssima. É a maior cigarra que existe na Europa, até à região da Turquia, que é um hot spot para a especiação. A Península Ibérica, aliás, também é, com uma posição muito interessante, porque funciona como uma espécie de ilha, isolada pelos Pirenéus desde há uns bons milhões de anos. Por outro lado, esteve um pouco protegida das glaciações por estar ligeiramente mais a sul, o que permitiu que aqui tenham persistido insetos pré-glaciários.



Voltando ao seu fascínio pela natureza, os animais e os insetos...


No século XIX, eu seria um naturalista. E isso pelo contacto direto com a natureza na infância. Comecei a trazer para casa alguns insetos e ainda tenho dois ou três exemplares dessa altura, que estão já estão em muito mau estado.



A sua família não se aborrecia por levar insetos lá para casa?


Talvez, um pouco, a minha mãe, pelo seu cuidado com a arrumação. Mas de maneira nenhuma me limitaram, ou desencorajaram. Também não me encorajaram. A minha escolha mais tarde pela Biologia foi absolutamente minha. Houve uma altura em que pensei ir para Medicina, mas, à semelhança de outros naturalistas, acabei por ir para Biologia porque também me fazia um pouco de impressão ter de trabalhar diretamente com cirurgias. A biologia é perceber a vida, incluindo a vida humana.



Fez Biologia aqui na Faculdade de Ciências?


Sim, mas ainda na Rua Escola Politécnica. Ainda cheguei a dar aulas lá, como assistente. Depois, por razões militares, aceitei uma comissão de serviço ainda como civil, na Universidade de Luanda. Isso dava-me a possibilidade de compatibilizar o serviço militar com a universidade. Formei-me em 1966 em Ciências Biológicas. Em 1967, o professor [Germano] Sacarrão, que era o diretor da faculdade e do Museu Bocage, na Politécnica, onde eu tinha feito um estágio, convidou-me para assistente. Depois houve esse problema do serviço militar obrigatório e eu aceitei um convite do reitor da Universidade de Luanda. Estou muito grato a três professores da licenciatura. O professor Pinto Lopes, da Biologia Vegetal, que depois conheci melhor em Luanda porque ele também foi lá fazer uma comissão de serviço e dirigiu o departamento de Biologia, o professor Sacarrão e o professor Almeida Fernandes, que era naturalista e entomologista. Com este fiz um estágio na parte final da licenciatura que nem era obrigatório, e que foi muito especial. Ele soube que eu gostava de insetos, contactou-me e a seguir comecei a trabalhar com ele. Foi ele que do ponto de vista profissional e científico me abriu as portas da entomologia.



Como foi depois a sua experiência em Angola?


Foi fascinante. Mas, antes disso, ainda fiz um outro estágio na missão dos Estudos Agronómicos do Ultramar, na Tapada da Ajuda. Aquilo pertencia à Junta dos Estudos do Ultramar, estamos a falar de antes do 25 de Abril, porque faltava lá uma pessoa na entomologia. Eles estudavam pragas, nomeadamente a do café de Timor, e outras, do arroz. Depois disso fui então convidado para assistente. Foi difícil, porque deram-me as aulas práticas de Fisiologia Animal Complementar, para as quais eu não estava preparado, e também porque não havia equipamento. E tive de dar as aulas práticas.



Como é que fez?


Pedi algum equipamento à Química e tive de cingir-me ao que havia e fazer experiências que, se eu as descrevesse, hoje eram ofensivas. E eram. Para demonstrar que o ato reflexo não tem nada que ver com o cérebro, mas só com a medula espinal, decapitávamos rãs, coitadas, e testávamos os níveis de resposta dos atos reflexos com várias concentrações de ácido clorídrico ou sulfúrico em várias diluições. A partir de certo nível a rã esticava e encolhia a pata. Era uma violência e aquilo custava-me imenso. Felizmente essas aulas só duraram um ano, depois houve uma reforma e uma necessidade de modernizar a universidade. Quantos professores meus é que publicavam em revistas estrangeiras? Provavelmente só o professor Serra, que foi um grande geneticista e que tinha escrito um livro na Academic Press; o próprio professor Sacarrão, que publicava em revistas portuguesas e tinha muitas citações. Hoje qualquer jovem investigador tem projetos internacionais e publicações. Dá-me uma grande satisfação ver isso.



Queria voltar à sua missão em Angola...


Surgiu essa oportunidade de ir fazer lá uma comissão de serviço. Em 1968/69, em plena guerra, eu estava na expectativa de a qualquer momento ser chamado para fazer a recruta aqui em Mafra, e depois podia ir para qualquer lado: Guiné, Angola, Moçambique. Entretanto, a Universidade de Luanda, precisamente em 1969, criou o curso de Biologia e eu tive um convite para fazer lá essa comissão de serviço.



Como foi essa experiência?


Extraordinária. Eu ia contrariado porque não foi bem uma decisão, foi uma possibilidade de não apanhar três ou quatro anos de guerra, que me desviariam com certeza do meu caminho, que era fazer o doutoramento. Era isso que eu queria. Estamos a falar da altura em que começa a biologia molecular, mas a universidade portuguesa estava muito estática. Surge nessa altura também o Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras, com todo o know-how da biologia molecular, as técnicas e os equipamentos mais modernos que havia. E eu tomei conhecimento num jornal, acho que foi até no Diário de Notícias, de uma notícia em que se avisavam as pessoas interessadas na área da Fisiologia, especialmente ligadas a institutos de investigação e a universidades, de que iam fazer ali um curso avançado e intensivo sobre Fisiologia Celular, com todo o equipamento moderno. Fui fazê-lo. Foi um mês e uma semana, em julho e agosto, precisamente na altura da primeira alunagem da Apollo 11, em 1969.



Quando foi para Angola já ia com toda essa bagagem nova?


Sim. Lá, no início, dei-me mal com o clima, porque é muito quente e bastante húmido e talvez não fosse preparado. Apanhava-se febres de todo o lado, dos mosquitos e da água, que tinha de ser filtrada e fervida. Mas depois adaptei-me. Fazia saídas e levava sempre a minha rede para apanhar insetos. Tinha de ser.



Sentiu-se naturalista em Angola?


Senti, e acabei por estar lá quatro anos. Tenho recordações ótimas, até pela simpatia do povo angolano. Sempre que podia saía de Luanda, de que não gostava muito porque era muito limitada. Eu estava lá para dar as aulas, mas sempre que podia ia para a região do planalto, para conhecer o máximo possível, até porque estava também a pensar na minha tese de doutoramento. Mas não queria fazer a minha carreira toda em África, queria acabar a comissão de serviço e voltar para a Europa, até porque aquela situação em África era insustentável. A nossa posição era tão ortodoxa e pré-Segunda Guerra Mundial que não cabia na cabeça de ninguém. O mundo tinha mudado, e a emancipação dos povos era mais do que legítima. A Inglaterra fez a descolonização, a França fez pior porque já fez com guerra, e Portugal pior ainda fez, tardiamente, quando as coisas deveriam ter sido feitas de outra maneira, em diálogo, com planeamento, e muito antes.



O que escolheu, afinal, para a sua tese de doutoramento?


Já estava há dois anos em Angola e, em 1971, abriu um outro curso na Gulbenkian sobre taxonomia numérica e morfometria, que eram técnicas altamente sofisticadas. Nessa altura deu-se o grande desenvolvimento dos computadores, que ainda eram gigantes e ocupavam muitas salas, mas que permitiram fazer cálculos altamente complexos. Morfometria significa o estudo da forma que é importante nos estudos de taxonomia. E através de uma série de medidas e características colocadas em código tornou-se possível fazer um estudo mais objetivo, organizando as espécies em grupos que podem ser visualizados com técnicas da matemática, com pouca perda de informação. Apaixonei-me por isso, e como também gostava do estudo da diversidade, a base do que hoje se chama biodiversidade, contactei o Imperial College, em Londres, para fazer lá o doutoramento. Tinha ideias e material não me faltava. Estava em Angola e já tinha recolhido material. Escolhi um género de uma cigarrinha, que apanhei nas várias saídas, e elaborei um plano que foi aprovado no Imperial College. Mas, em 1973, não me deixaram ir. Uma lei de Marcelo Caetano, concertada com o general Spínola, para poder ter gente com formação na Guiné, dava a possibilidade de os militares cumprirem as suas funções em missões civis. A lei acabou por ser extensiva a todas as colónias e, por isso, tive imensa sorte. O reitor perguntou-me se eu queria fazer isso e eu disse-lhe: "Ó senhor reitor, então não havia de querer?" Tive de fazer lá a recruta. Interrompi as aulas e estive seis meses na preparação militar, e depois continuei a dar aulas. Mas por causa disso não me deixaram ir para Londres fazer o doutoramento em 1973. A região militar não me deu autorização. Mas ir para o Huambo fazer a recruta também foi bom do ponto de vista entomológico porque era uma área diferente. Quando estava em Luanda só podia fazer umas escapadelas para ir apanhar insetos nas férias, no máximo 15 dias. Mas nos exercícios militares também levava sempre um aspirador e uma pequena rede [risos]. Ainda apanhei lá alguns insetos que depois utilizei na minha tese.



Quando é que saiu de Angola?


Só saí mais tarde, a seguir ao 25 de Abril. E no Imperial College foram muito simpáticos porque esperaram por mim. Fui desmobilizado em 1974 e iniciei a tese em setembro desse ano, sobre a aplicação de técnicas numéricas à biodiversidade, num grupo de insetos africanos, o género Batracomorphus . Utilizei material que eu próprio colhi, que comparei com as coleções nacionais do British Museum, onde havia muito material apanhado desde o século XIX. Tive uma amostra muito boa para testar aqueles algoritmos de semelhanças e correlações. E aí descobri muitas espécies novas. Descrevi espécies e fiz uma série de testes, alguns muito avançados para a época. Os meus programas só passavam nos computadores do Imperial College durante a noite porque o computador do Imperial College fazia conexão com o do governo e com o do University College para ter mais memória. Eu às vezes passava lá a noite para ver os resultados e verificar se havia algum erro.



Quantas espécies novas descreveu para a ciência?


No último cômputo que fiz, há uns tempos, contei 129 [ri-se]. Mas perante aquilo que falta descrever é muito pouco. A minha ajuda para o estudo da biodiversidade é diminuta, porque pensa-se que existem, no mínimo, cerca de cinco milhões de espécies de insetos, e só estão descritas um milhão e 500 mil.



Em Portugal ainda falta descrever muitas?


Sim. No caso das cigarras, em que tenho trabalhado muito, estão confirmadas 13, e poderá haver mais uma ou duas, o que é insignificante. Há cigarras que estão muito localizadas, e esse foi um dos problemas que passaram também a interessar-me, por causa das extinções e da necessidade de protegermos e conservarmos algumas das espécies. Nomeadamente a Euryphara contentei, que está muito localizada e com populações muito reduzidas. Mas Portugal é um hot spot de biodiversidade, ninguém sabe ao certo quantos insetos existirão cá. No mínimo devem existir cerca de 20 mil, com a possibilidade de serem substancialmente mais.



E quantas espécies de insetos já estão descritas cá?


Também ninguém sabe bem, porque não se fez esse somatório, mas talvez dois terços já estarão descritas.



É fácil interessar os alunos pelos insetos?


É uma boa pergunta. Há aí um fator aleatório. Houve anos em que tive alunos excecionais, que gostaram imenso da Entomologia, e as aulas foram um prazer enorme, e penso que foi recíproco. Alguns de vez em quando ainda recordam isso com saudade, tal e qual como eu. Mas houve anos em que não aparecem alunos com essa vocação. Ou estavam mais inclinados para a genética, ou a área da botânica, ou dos vertebrados, que são mais aliciantes, o que compreendo perfeitamente. Estão mais próximos de nós, e é também uma questão de dimensão. Nós compreendemos muito melhor organismos que podemos apreciar sem ser ao microscópio. Sabemos que há vírus com formas muito interessantes, mas a imagem tem de vir de forma indireta. Os insetos são pequeninos, pelo que é difícil ver determinados pormenores. É um problema de escala.



Um aluno que se encanta pelos insetos encanta-se com o quê?


Os insetos, e foi sempre essa mensagem que transmiti aos alunos, porque senti isso, estão cá para ficar. Dominam o planeta há milhões de anos e dão-nos lições de humildade, de tolerância, de admiração e fascínio. Mas custa a ver. É como ir a uma cidade ver os grandes monumentos, mas depois não se conhece os pequenos bairros. Em Londres, onde estive por vários períodos, até depois em sabáticas, encantei-me pelos pequenos bairros, com os pubs, as suas coisas típicas e um ambiente muito próprio, mas isso leva tempo a conhecer. Com os insetos é a mesma coisa, temos de os descobrir. Na brincadeira eu até dizia que eles não se mostram como os modelos nas passerelles, só em caso de pragas, e isso de facto é repugnante. Alunos que trabalharam comigo, hoje, já têm alunos a trabalhar com eles em entomologia. E muito bem, são pessoas com garra, e isso é muito gratificante. Quer dizer que os temas continuam. Alguns estão a trabalhar em cigarras.



Mas os insetos picam e zumbem...


Alguns. De certeza que já gostou de visitar jardins cheios de flores e de ver as flores cheias de borboletas. Isso encanta. Esses insetos usam um tipo de comunicação que é visual, e isso foi também um tema que me apaixonou.



Descreveu 129 espécies e, portanto, teve direito a dar-lhes os nomes. Que tipo de nomes escolheu?


A primeira espécie que descrevi, por gratidão, dediquei-a ao professor Almeida Fernandes. Era uma espécie de Cabo Verde. Depois encontrei uma espécie nova cá, que dediquei ao professor Sacarrão. Ficou Lusitanocephalus sacarraoi. Fiz algumas homenagens, e também dei nomes de localidades.



Qual foi a dedicatória mais divertida nos nomes que deu a espécies?


Nunca pensei nisso. Tenho peripécias, quase todas no campo, mas não com nomes. Algumas foram sustos. Em Angola, por exemplo. Uma altura fomos fazer trabalho de campo ao sul de Angola, que é um planalto extraordinário, no Lubango. Estive aí com outro colega e íamos em dois carros, com as famílias. Estávamos a fazer colheita e ao fim do dia veio uma grande trovoada, quando já estávamos de partida. Estávamos num sítio onde havia uma espécie interessantíssima que eu sabia que não voltaria mais a encontrar. Aprendi em África que as oportunidades não se repetem. Vi lá uma vez uma migração de borboletas - são milhões a voar - e pensei: "Fica para a próxima." Nunca mais houve próxima. Devia ter parado logo naquela altura. Então naquele dia fiquei um pouco mais, já estava a chover imenso, e eu estava encharcado. O outro carro, entretanto, foi andando, encontrávamo-nos depois. Mas quando finalmente entro para o carro, não tinha chave. E estava a escurecer, em África escurece muito depressa. Estava com a minha mulher e fiquei um pouco aflito, mas não havia nada a fazer. Tivemos de esperar que os nossos amigos dessem pela nossa falta, e assim aconteceu. Aquilo era uma picada isolada, não estava próxima de nada. Podia ter havido uma enxurrada, podia ter acontecido muita coisa. Mas eles notaram a nossa falta e voltaram para trás. Nesse dia o meu carro ficou lá, fomos todos no carro dele. O duplicado da chave estava em Luanda, a mil quilómetros de distância. Lá mandei buscar a chave, que só veio dois dias depois. Mas veja a importância de ir acompanhado. Se estivesse sozinho, não ia morrer, mas não sei quantas horas levaria a andar a pé para chegar à cidade. E, possivelmente, perdia-me.



Voltando aos nomes, dedicou alguma espécie à sua mulher?


Dediquei. A uma nova espécie de cigarra, que identifiquei no Algarve, numa zona de pinheiro-manso. Eu ouvia lá uma cigarra com um sinal diferente, e era mesmo. Dediquei-a à minha mulher. Era do género Tettigettalna e dei-lhe o nome específico de mariae.



Ela ficou contente?


Acho que sim [ri-se].



Hoje ainda continua a ir para o campo?


Sim, sim. Once an entomologist, always an entomologist [ri-se].



Fala-se muito hoje de que os insetos podem ser um dos alimentos do futuro. Tem cabimento?


Tem cabimento científico, sim. No nosso passado, e mesmo no presente, os insetos sempre fizeram parte da dieta humana. A própria Bíblia, que é uma referência cultural importante, fala nisso. Os nossos antepassados alimentaram-se muito de insetos de certeza absoluta. Um colega da Universidade Nova ligado às bioquímicas fez um estudo sobre os nutrientes dos insetos e verificou que a proteína, por exemplo, é de qualidade superior, e as gorduras são todas muito mais saudáveis. E, além disso, a concentração dos elementos contaminantes da poluição vai aumentando à medida que se sobe na cadeia alimentar. Os insetos, que estão o logo a seguir às plantas, têm menos contaminantes do que as aves ou outros animais no topo da cadeia alimentar.



Já alguma vez comeu insetos?


Provei em Angola. Fazia parte da dieta de muitos indígenas. Há uma grande diversidade de insetos comestíveis: larvas, coleópteros, grilos. Aquele que eu provei, que era uma coisa próxima dos gafanhotos, sabe um bocado a nozes. É agradável. As cigarras também são comestíveis, mas não provei [ri-se]. São é muito apreciadas pelas aves.



É uma experiência a repetir?


Sim, porque não? Até poderei um dia fazer uma refeição só de insetos. Por acaso já há restaurantes cá, mas não tem calhado.




Fonte: Diário de Notícias (Portugal)