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25/02/2015 - Aranha-marrom identifica pontos fracos de presa ao atacá-la



O revestimento espesso e rígido que recobre o corpo de alguns artrópodes (como insetos, crustáceos e aracnídeos) não funciona como uma armadura muito eficiente para o opilião Mischonyx cuspidatus se safar do ataque de uma aranha-marrom (Loxosceles gaucho).


Um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), em colaboração com colegas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), de Minas Gerais, demonstrou que a aranha-marrom é capaz de identificar regiões vulneráveis do corpo do Mischonyx cuspidatus, onde o exoesqueleto é mais flexível, para matar e devorar a presa.


Resultados da pesquisa, realizada no âmbito do projeto “Comunicação química em opiliões (Arachnida, Opiliones): morfologia, comportamento e química”, com apoio da FAPESP, foram descritos em um artigo que acaba de ser publicado na versão on-line da revista Animal Behaviour, da editora Elsevier.


“Constatamos que a aranha-marrom consegue evitar a armadura do opilião Mischonyx cuspidatus, identificando as regiões do corpo da presa mais vulneráveis e conseguindo, dessa forma, perfurá-lo mais facilmente”, disse Rodrigo Hirata Willemart, professor da EACH-USP e coordenador do projeto, à Agência FAPESP.


Os opiliões são aracnídeos da ordem Opiliones. A subordem mais comum no Brasil é a dos Laniatores, ao qual pertence a espécie Mischonyx cuspidatus.


De acordo com Willemart, eles têm diferentes estratégias de defesa para se desvencilhar de um ataque dessas aranhas – um de seus predadores, ao lado de algumas aves, mamíferos e anfíbios, entre outros animais. Uma delas é a liberação de secreções com cheiro forte, nas formas de gota ou em jato para afugentar o predador.


Os pesquisadores brasileiros descobriram, contudo, que essa estratégia de defesa química raramente é usada por alguns opiliões da subordem Laniatores contra espécies de aranhas da família das armadeiras, como a Enoploctenus cyclothorax e a Ctenus ornatus.


A hipótese levantada era a de que os opiliões Laniatores, por possuir um exoesqueleto rígido, já tivessem proteção contra as aranhas. Usar secreções contra esses predadores já tendo essa “armadura” talvez representasse um desperdício de “arma química”, com provável alto custo de produção para o aracnídeo, avaliaram.


“Apesar de essas duas aranhas serem muito mais fortes e maiores, elas não conseguem penetrar a armadura dos opiliões porque muitas vezes o ferrão das quelíceras [peças buçais que usam para picar] escorrega no exoesqueleto da presa e elas desistem de atacá-los”, disse Willemart. “Elas pulam em cima do opilião, tentam mordê-lo e logo perdem o interesse, porque a armadura do aracnídeo é muito dura.”


Ao realizar estudos em campo os pesquisadores constataram, entretanto, que a aranha-marrom, que tem corpo e quelícera mais delicados, é capaz de matar e comer os opiliões.


“Encontrávamos frequentemente na mata carcaças de opiliões Laniatores em teias de aranha-marrom. Por isso, ela nos pareceu ser a espécie perfeita para entender como a armadura do opilião poderia ser superada.”


Experimentos em laboratório


A fim de descobrir como predam opiliões e avaliar em detalhe a estratégia de caça desses animais, os pesquisadores fizeram três experimentos em laboratório, com pares de aranhas-marrons e de opiliões Mischonyx cuspidatus.


No primeiro, avaliaram se a aranha-marrom usa as pistas químicas deixadas pelo opilião ao caminhar sobre uma superfície como indicação para selecionar o lugar onde deve permanecer para capturar o aracnídeo.


Eles mantiveram opiliões em um papel-filtro por 24 horas, para que os animais caminhassem sobre a superfície e impregnassem o papel com compostos químicos. Em seguida, introduziram o papel impregnado com compostos químicos do opilião em metade da área do terrário e deixaram a outra metade do recipiente sem pistas químicas para avaliar em qual lado as aranhas-marrons permaneciam por mais tempo.


Não houve diferença significativa de tempo em que as aranhas permaneceram nos lados com e sem pistas químicas dos opiliões no terrário.


“A aranha-marrom não usou as pistas químicas do opilião para escolher o lugar onde deveria permancer”, disse Willemart.


Já no segundo experimento, os pesquisadores avaliaram se as vibrações transmitidas por um substrato são importantes para a aranha-marrom localizar o opilião em um ambiente, uma vez que esse fator tem um papel importante na captura de presas por aranhas – e as aranhas-marrons não possuem visão acurada.


Eles colocaram aranhas-marrons e opiliões sobre um substrato que transmite vibração – um papel-filtro – e outra superfície que diminui muito as vibrações – uma pedra de granito – e avaliaram quanto tempo as aranhas levavam para atacar os opiliões em cada um desses diferentes substratos.


Os resultados do teste também indicaram que nos dois tipos de substratos as aranhas foram bem-sucedidas em capturar a presa.


“Isso não significa que a aranha-marrom não usa as vibrações transmitidas por um substrato para localizar a presa, mas que, com ou sem essa modalidade sensorial, ela consegue capturar o opilião”, disse Willemart.


No terceiro experimento, os pesquisadores avaliaram se as teias que a aranha-marrom tecem sobre o chão, parecidas com um lençol de seda, possibilitam capturar e manusear mais facilmente o opilião ao permitir que ela morda áreas mais vulneráveis da presa.


Nesse teste, a aranha-marrom foi igualmente bem-sucedida, capturando o aracnídeo com ou sem o lençol de teia.


“Achávamos que a aranha-marrom teria mais sucesso usando o lençol de teia. Mas, surpreendemente, não foi o que aconteceu”, disse Willemart.


Das 68 aranhas-marrons que os pesquisadores utilizaram nos testes, 51 encontraram uma maneira de capturar e, em seguida, matar e devorar os opiliões, contou o pesquisador.


Golpe de judô


Para entender como a aranha-marrom supera as defesas de uma presa com uma armadura tão blindada, como o exoesqueleto do opilião, os pesquisadores gravaram vídeos e descreveram o comportamento do aracnídeo ao atacar a presa.


Segundo Willemart, inicialmente, a aranha-marrom se aproxima devagar e com cuidado do animal, tentando se colocar sempre na frente da presa para evitar a fuga.


Ao cercá-lo, a aranha começa a tatear o opilião repetidamente com as pernas, possivelmente procurando áreas vulneráveis e evitando se aproximar muito do corpo do aracnídeo, que também possui quelícera e espinhos afiados nas pernas.


Se o opilião fica imóvel ou movimenta-se pouco, a aranha-marrom pode aplicar um golpe que configuraria um ippon, no judô, em que o derruba de costas no chão.


Em seguida, desfere uma série de picadas venenosas nas articulações e nas partes distais das pernas (a porção mais afastada do corpo) – as regiões em que o exoesqueleto é mais mole para permitir a movimentação do aracnídeo.


“Analisamos 176 picadas desferidas por aranhas-marrons em opilões durante o estudo e em 100% dos casos elas ocorreram nas articulações ou nas partes distais das pernas”, afirmou Willemart.


Em nenhum dos ataques, os opiliões liberaram secreções químicas contra as aranhas-marrons.


Uma hipótese para explicar a decisão de não usar a defesa química é que os opiliões evitam utilizar as secreções defensivas contra aranhas, de forma geral, uma vez que, aparentemente, podem se proteger do ataque da maioria delas apenas por meio do exoesqueleto rígido.


Mas não contam com as habilidades da aranha-marrom de identificação dos “pontos fracos”.


“A aranha-marrom tem uma estratégia de caça de opilião que, em comparação com as usadas por outras espécies de aranhas, como algumas que pertencem ao grupo das armadeiras, funciona muito melhor”, avaliou Willemart.


“É como se as aranhas-marrons fossem lutadoras estrategistas, que exploram os pontos fracos dos oponentes, e as aranhas do grupo das armadeiras, lutadoras de rua, que atacam o opilião sem a técnica adequada”, comparou.


Os pesquisadores pretendem estudar, agora, se outros artrópodes com exolesqueleto rígido geram respostas similares ao serem atacados tanto por aranhas que caçam, como as do grupo das armadeiras, e por aranhas-marrons.




Fonte: Agência FAPESP - 2015

Foto: Rodrigo Hirata Willemart - Agência FAPESP