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27/11/2019 - Engº Agrônomo Glauco Olinger, 97, é uma enciclopédia viva da agricultura catarinense.



O currículo do engenheiro agrônomo Glauco Olinger é tão vasto que não há como evitar os riscos de uma temerária síntese ao falar dele. Mas basta citar que fundou a Acaresc (Associação de Crédito e Assistência Rural do Estado de SC), hoje Epagri, em 1956; foi secretário de Estado da Agricultura e Educação, presidente da Embrater e criador do bem-sucedido projeto da fruticultura que tornou Santa Catarina uma das referências nacionais nesse segmento.


Além disso, Olinger foi professor e diretor do Centro de Ciências Agrárias da UFSC, criou e organizou o modelar sistema de extensão rural em todas as regiões catarinenses, que também levou para Angola e Cabo Verde.


Aos 97 anos, lúcido e crítico como sempre, Glauco Olinger é uma enciclopédia viva quando o assunto são a agricultura, a pecuária e a agroindústria. Fala com desenvoltura de temas correntes e faz digressões aos tempos em que atuou em países como México, Chile, Guatemala, Venezuela e Estados Unidos.


Seus livros “Memórias da vida rural e da política agrária e o potencial do Brasil para a segurança alimentar” e “Agricultura catarinense – Em busca do equilíbrio ecológico” (ambos editados pela Unisul) mesclam memórias da vida e da carreira com considerações sobre o modelo de produção alimentar brasileiro, o futuro do planeta e os desafios representados pela sustentabilidade.


Vale aqui, pela longevidade e pelos exemplos que dá, passar a receita dele próprio para uma vida extensa e saudável. Glauco Olinger abandonou o cigarro de palha e o cachimbo quando descobriu os males que causavam, aprendeu a parar de comer antes de se sentir farto, eliminou o açúcar e o sal, consome muitas frutas e legumes, faz exercícios de memória antes de dormir para manter os neurônios ocupados e caminha regularmente pelas ruas próximas de seu apartamento, na avenida Beira-mar Norte, em Florianópolis.


Ele jogou xadrez a vida inteira, fez nado, mergulho e caça submarina, jogou futebol de salão até os 89 anos e foi corredor de 100 metros livres (com a fantástica marca de 11,2 segundos). Atribui à sorte uma existência tão longa e profícua, sem esquecer de valorizar os ensinamentos do pai e as comidas da mãe, em Lages - SC, a terra natal.


Quase foi nomeado governador do Estado, mas diz que nunca pediu um cargo público a quem quer que seja. Também foi o primeiro secretário de Estado a abolir a gravata no expediente e em solenidades oficiais. “Isso é um cabresto”, justificou-se ao governador Ivo Silveira quando tirou o paletó e a gravata numa reunião no palácio do governo.



ENTREVISTA



O senhor participou ativamente da implantação do modelo da extensão rural que mudou o padrão da produção agrícola em Santa Catarina. Como tudo começou?


Eu já vinha de uma experiência exitosa, ainda em 1948, em Minas Gerais, onde me formei em agronomia (Universidade Rural de Viçosa). Aqui, a assistência técnica e a extensão começaram a ser implantadas em 1956, usando o conceito norte-americano de ensino extra-escolar. Os agricultores não precisavam sair para estudar: os extensionistas iam até a casa deles. E o governo deixou de ser paternalista, dar sementes, adubos e ferramentas, para fornecer informação, ensino intelectual e orientação técnica, na linha do “ensinar a usar”.


Como isso foi implementado no âmbito do governo estadual?


Tive a oportunidade de contribuir com o Plano de Metas (Plameg) do governo Celso Ramos, nos anos 60, ao lado de figuras importantes como o professor Alcides Abreu. O grupo tinha liberdade, do ponto de vista técnico, para propor as melhores soluções para cada setor da economia do Estado. Criamos o Crédito Educativo Supervisionado, com juros baixos ou inexistentes e prazos longos de amortização. O pagamento era feito com o resultado da produção, e a inadimplência, na época, era inferior a 1%. A cada ano, planejávamos as ações do exercício nas áreas da suinocultura, da avicultura, da fruticultura, do cooperativismo.


A pesquisa agropecuária foi outro segmento que passou a merecer atenção…


Não existe nação que se desenvolveu sem investir na pesquisa básica e aplicada. Até os anos 50, as pesquisas feitas no âmbito do Ministério da Agricultura eram pouco divulgadas. Também havia muita pesquisa especulativa e pouca informação útil. Aí surgiu a Embrapa, cujo trabalho deu resultados no curto prazo e transformou a agricultura e a pecuária brasileiras. Em Wisconsin, nos Estados Unidos, onde estive, pesquisadores, professores e extensionistas ocupavam as mesmas salas, mas aqui ainda havia – e há, em alguns casos – pouco entrosamento das universidades com os ministérios, por exemplo, o que prejudica a área da agricultura, mas também a saúde e a educação.


O Brasil ainda é um grande exportador de grãos, de commodities. Já não deveria ter virado a chave e fazer como os países industrializados?


O Brasil ainda não se desvinculou do sentimento de nação colonizada. Exportamos grãos, carne com osso e animais vivos. É um erro crasso. Precisamos exportar o bife, colocá-lo na mesa na mesa das donas de casa no exterior. Lá fora, eles usam os nossos grãos para fazer óleo de farinha e azeite de milho. Se o milho rende mais de 100 subprodutos, a soja é desdobrada para fabricar óleo, farinha, plástico e até pneus. Santa Catarina é uma exceção, porque os suínos e frangos são desdobrados e exportados, agregando valor ao produto. O Brasil não pode ser responsável por fornecer quase 40% dos alimentos do mundo, como queria a FAO, quando o planeta chegar aos nove ou dez bilhões de pessoas. Nossa responsabilidade é garantir a produção de alimentos suficientes e de qualidade para a própria população brasileira.


No Brasil, os alimentos de consumo corrente são majoritariamente fornecidos pela agricultura familiar, ao passo que os latifúndios são exportadores. O que acha desse modelo?


Há vários países dentro do Brasil, do ponto de vista agrário. Há regiões onde as máquinas fazem o trabalho de 200 homens no campo, como ocorre na colheita do algodão. Contudo, a automatização não é o melhor cenário, porque máquinas pesadas demais compactam o solo, reduzem o seu arejamento e, por tabela, o oxigênio e os microorganismos que dão vida à terra. Com o solo degradado, cai a produtividade. Sou confuciano, defendo o caminho do meio, ou seja, o das médias propriedades. Temos no Brasil entre 70 e 80 milhões de hectares cultivados, mas outros 300 milhões podem ser explorados, segundo a Embrapa, sem risco de degradação ambiental. Há 140 milhões de hectares de áreas degradadas, que precisam ser revitalizadas para uso na agricultura e pecuária, mas também para o reflorestamento e silvicultura.


Hoje se fala muito em produção sustentável, combate à emissão de poluentes, produção orgânica, controle de agrotóxicos. Como conciliar a necessidade de produzir alimentos sem sobrecarregar o ambiente?


A pegada ecológica é mais importante para algumas regiões do mundo onde não há condições de produzir alimentos para todos, como em partes da África e também na China, onde apenas 15% do território pode ser utilizado pela agricultura. A China tem quase 1,5 bilhão de habitantes e depende muito de alimentos que vêm do exterior. Mais de 30% da suinocultura chinesa foi dizimada pela peste suína clássica, e isso cria condições excepcionais para Santa Catarina. Eles não querem milho e soja – querem carne já processada.


O tema dos agrotóxicos ganhou relevância recentemente com denúncias de liberação desenfreada de produtos que são proibidos em outros países. Qual é sua posição sobre isso?


Na questão dos agrotóxicos, o debate tem mais ideologia do que conhecimento científico. E onde entra a ideologia, a ciência sai pela porta dos fundos. Todo produto de combate às pragas e doenças, nas plantas e nos animais, é defensivo agrícola, mas nem todo defensivo é tóxico. Alguns já foram condenados e ainda são usados indevidamente, por falta de fiscalização ou de aplicação das leis. Não há infraestrutura suficiente para proibir. Há venenos que não produzem qualquer dano ao mundo vegetal e a quem os aplica. Há milênios nossos índios já extraíam dos cipós o produto que tonteava e facilitava a captura de peixes. Depende muito da maneira de usar, de cuidados para que nem o meio nem o aplicador sejam prejudicados.


O tema rendeu debates acalorados também por aqui…


O governador Carlos Moisés está correto em taxar os agrotóxicos, mas há situações em que, sem eles, não existe produção. O Estado erra ao juntar tudo num saco só – produto da falta de informação.


Como vê o futuro na área em que sempre atuou, e no próprio planeta?


O homem está intervindo danosamente no clima do planeta, como se vê na destruição das florestas, que têm o papel importantíssimo de reter a umidade no solo e garantir a evaporação. Porém há também transformações que decorrem de abalos sísmicos, movimentos da crosta terrestre, erupções vulcânicas, alterações climáticas radicais localizadas. Atualmente, um dos caminhos é a agricultura urbana, que ainda tem pequena escala, mas que vem crescendo muito, inclusive nas principais metrópoles do mundo.




Fonte: Jornal ND Mais (SC)